A Pequena Morte

Jabuticaba. Uma fruta que sensibiliza os sentidos. Dessas que você come com prazer, direto do pé. Doce, complexa, com cores e sabores marcantes. Não à toa, ela foi escolhida pela Pequena Morte para dar nome ao seu novo trabalho. Permeado por fusões musicais e por uma sonoridade que desperta reações sinestésicas, o segundo disco da banda mineira apresenta músicas com temperos latinos e um trabalho de estúdio minucioso. O resultado final revela o amadurecimento do grupo que completa 10 anos de estrada em 2016.

Para compreender Jabuticaba é preciso fazer algumas viagens no tempo: a trajetória da Pequena Morte é toda marcada por encontros. Um deles foi durante a passagem por terras paraenses, quando os integrantes se aproximaram de ritmos que, como o carimbó, possuem elementos da música caribenha em seu DNA. O diálogo com a musicalidade da banda – que tem como marca um ska não ortodoxo e abrasileirado – foi imediato. Isso trouxe influências para os futuros processos de composição e para a criação de arranjos do novo álbum.

Todas as 10 faixas do Jabuticaba são iluminadas pelo clima ensolarado e conduzem o ouvinte através de uma viagem sonora por um litoral imaginário. Com letras em português, espanhol e inglês que falam sobre experiências cotidianas e extraordinárias, ilusões e desilusões.

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As músicas foram gravadas no Estúdio Minotauro mas os primeiros contornos surgiram durante a pré-produção no New Zion – Caixa D’Ovo, estúdio que é como a casa da Pequena Morte. O vocalista e guitarrista Raul, principal compositor do grupo, foi o responsável pela direção artística dos arranjos e a produção ficou por conta de Ygor Rajão, que também trabalhou no primeiro disco da banda.

Na busca por diferentes sonoridades, eles aproveitaram para experimentar com os timbres dos instrumentos, amplificadores, pedais e microfones. Esta escolha abriu espaço para a criação durante o processo de gravação. Quando as músicas começaram a ganhar forma, a Pequena Morte percebeu que Jabuticaba poderia ser ainda mais fértil com participações especiais e escolheu os convidados a partir de cada música.

Glenn da Costa, músico que acompanhava Bob Marley e gravou diversos discos com a lenda do reggae, foi uma das pessoas que cruzou o caminho do grupo em boa hora. Quando o The Wailers se apresentou na capital mineira, eles trocaram ideias e contatos. Assim que a música “Remi” ficou pronta, eles a enviaram para o saxofonista, que gravou a sua parte na Jamaica. O naipe de metais e percussionistas do Iconili foi chamado para colorir a música “Vamo que Vamo”. Rafael Ludicanti, outro dos 18 convidados, cantou na faixa que leva o nome da sua própria banda, “The Junkie Dogs”.

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Depois de gravar, o próximo passo foi a escolha de um produtor musical para mixar as faixas, o que levou a banda até o novaiorquino radicado em São Paulo, Victor Rice. Reconhecido por seu trabalho com a música jamaicana, o engenheiro de som fez um trabalho de mixagem analógica, deixando o som com texturas, empoeirado e quente, assim como deveria ser. Não foi a primeira vez que o grupo se envolveu com um profissional que é referência na música do Caribe: em 2014, o pernambucano Buguinha Dub mixou duas das três faixas do EP Dub Is In.

Aliás, a conexão com a pequena ilha paradisíaca da América Central tem sido uma constante na carreira da Pequena Morte. Em uma das experiências mais emocionantes vivida pelos integrantes, eles atuaram como a banda de apoio de Jackie Bernard quando o lendário vocalista dos The Kingstonians esteve pelo Brasil. Em uma troca intensa, eles fizeram dois shows, vários ensaios e tiveram a oportunidade de ouvir de perto sobre a vida do jamaicano, que transmitiu um pouco dos seus conhecimentos musicais e trouxe novos olhares para o sexteto.

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Com o disco quase pronto, faltava ainda traduzir a música em imagens. Para criar a arte gráfica, o escolhido foi o artista visual Shiron The Iron. O conceito das ilustrações foi baseado em uma lenda típica da região de Macacos, vilarejo próximo a Belo Horizonte onde a banda foi criada. Ela conta a seguinte história: uma vez por ano a Jabuticabeira se transforma em uma figura humana bela, jovem e lasciva. Nesta noite ela busca diversão, espalha euforia, seduz rapazes e moças, traz o cio coletivo, a festa. Ao consumar o ato de amor ela se transforma novamente em árvore e fecunda a fruta doce, explosiva e entorpecente.

A ideia não poderia ser mais apropriada, já que Pequena Morte é sinônimo de prazer. O próprio nome vem daí: Le Petit Mort é uma expressão francesa que se refere ao momento transcendente do orgasmo. E essa sempre foi a intenção dos músicos ao criar um som para celebrar a vida e envolver corpos e mentes em uma dança despretensiosa. Quando olhamos de perto para essa trajetória, notamos que desde o primeiro disco, Defenestra (2011), a festa está presente e transforma o caminho trilhado.

Na verdade, é possível ir ainda mais longe. O festival S.E.N.S.A.C.I.O.N.A.L!, que ocupa as ruas de Belo Horizonte desde 2010, também é fruto da ousadia do grupo. Após uma viagem para a Europa – que incluiu a participação em um festival na Itália e cinco shows na Letônia, onde conheceram e dividiram o palco com a banda de reggae Hospitalo Iela – a Pequena Morte criou o evento para recepcionar os amigos letões. A experiência de receber artistas de fora e da própria cidade serviu para intensificar e diversificar o intercâmbio cultural que faz da Pequena Morte o que ela é hoje. E é de todos esses encontros que nasce, enfim, Jabuticaba.

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